8.2.06
Impressões sobre um funeral
As pessoas se movem com respeito. Passadas fortes e cabeças erguidas são raros, como se a morte ainda estivesse dando rasantes por ali. os poucos desavisados que riem por qualquer motivo banal, se sentem constrangidos, quase amaldiçoados. Os curiosos, querendo serem convencidos de que a morte é real, olham para o morto com um assombro patético. Os familiares choram o falecido e, em algum canto do funeral, cenas pitorescas e interessantes da vida recém encerrada são lembradas, com sorrisos leves e lágrimas disfarçadas. Uma criança corre e brinca com um desdém infantil pelo que ocorre a sua volta. Gritando e correndo enquanto todos a volta o olham, não parece perceber que perdeu o avô.
No enterro, as filhas desatam a chorar, de um modo que parece tragicamente competitivo. Nada é falado, e um observador que saiba o quanto o recém-chegado à "floresta dos homens esquecida" merece, sente que, mesmo que as palavras se esvaziem ao vento, as vezes devem ser ditas. O incômodo e angustiante barulho da terra sendo jogada pela pá sobre o caixão não ocorre. Em seu lugar apenas um pedreiro fechando a caixa de alvenaria onde o caixão foi depositado.
Tijolo a tijolo, a última morada do sujeito vai sendo finalizada. O pedreiro, de joelhos, trabalha maquinalmente, enquanto a sua volta as pessoas olham desoladas para o seu trabalho. O silêncio reina, e é apenas desrespeitado pro dois sujeitos, um de cada lado do tumúlo que, em voz alta, combinam se encontrar na próxima semana.
posted by Ligeirinho |
11:43 AM
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