15.1.04
Sobre dias nublados
Será que com todo mundo é assim?
De repente, você se dá contas que, por dias e dias, tem andado com os olhos no chão e que não saberia (exceto se noticiado na internet) que o céu tinha se tornado verde ou que as nuvens ficaram todas em forma de bola. Se dá conta também que as pessoas a sua volta tem parecido fantasmas (ou antes, que você tem sido um) e que você tem se comportado como uma bola de bilhar: se movendo de tempos em tempos, por pura reação e inércia, mas tentendo sempre a ficar parado.
A sensação é como a de acordar. Você conclui que praticamente tudo que disse ultimamente foi automático, que estava assistindo tudo como um vigia dentro de uma salinha escura monitora um prédio pelas câmeras. Lembra que conversou, que sorriu, que brincou, que até replicou e se irritou; mas no fundo sabe que parte de você, aquela parte que brilha, esperneia, chora e gargalha, não estava ali. Ou antes, estava, mas como mera expectadora.
Então, por um estalo, você volta a si. Há tanto para falar que você tem dez respostas para cada pergunta. Há tanto para ver que você não sabe se admira o profundo verde das gramas ou o hipnotizante azul do céu. Por fim, você entende que, se as pessoas depois que morrem renascem eu outro lugar com a mesma consciëncia e inteligência, deve ser essa exatamente a sensação: renascer. E você não terá nada mais do que um sorriso para retribuir ao mundo por essa oportunidade de continuar e recomeçar.
posted by Ligeirinho |
12:38 PM
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7.1.04
Sobre a geração "Filhos da Liberdade"
É fato que os pais costumam transformar suas frustrações em projetos de vida para seus filhos. Pais que queriam ser médicos fazem com que os filhos estudem para isso. Pais que casaram cedo e se arrependeram fazem de tudo para que os filhos demorem mais para se casar. Pais que foram tímidos querem que os filhos seja extrovertidos...
No entanto, muito além disso, a maior herança que está sendo transferida para a geracao adolescente de hoje e a liberdade. A geracao que sentiu na pele a ditadura e a repressao tanto politica quanto social, dos anos 60 e 70 hoje educa seus filhos baseados em duas palavras que nem sempre se aplicam a educacao: democracia e diálogo (mesmo na politica, os cínicos já podem dizer que a democracia é uma péssima forma de governo, mas nada melhor foi criado ainda).
Essa noção absurda de hoje de que tudo deve ser discutido com os filhos, de que não se pode exercer a autoridade paterna e que tudo se resolve pelo diálogo pode parecer bonita sendo dita por algum ator global, mas, creio eu, na pratica acaba fazendo com que muitas criancas nao adquiram o senso de limite e se tornem pequenos sociopatas.
Talvez eu esteja errado, mas reparem coisas que hoje parecem normais: crianças interrompendo conversas de adulto deseducadamente sem serem advertidas; crianças chorando ao pedir algo (principalemten em shoppings) pçor que sabem que os pais não irão reprendë-las, e sim satisfazë-las; crianças das quais não se exige sequer que passem x horas estudando em casa por dia.
Mesmo em escolas, conheço professores que dizem que a orientação mais passada atualmente é que as aulas sejam atraentes (parece que os alunos não tëm mais a obrigação de aprender). Adolescentes enfrentam professores por que sabem que não serão punidos (em escolas particulares, chegam a declarar que os professores devem "ficar na deles" por que podem ser demitidos por reclamações dos alunos).
Hoje em dia, meninas de 13, 14 anos chegam 3, 4 horas da manhã em casa. Adolescentes fumam (isso sempre aconteceu) mas sem a preocupação de o fazer escondido (no máximo escondido dos pais). Parece estar se criando um consenso que os pais devem deixar os filhos adolescentes transarem em casa, em seus quartos, para assim não enfrentarem a violência nas ruas.
Cessou a noção de limite. Não são raros, felizmente, mas são poucos os pais que exercem sua autoridade sem se sentirem intimidados. Parece que se deve convencer a tudo, esquecendo-se que nem sempre o necessário é agradável e que quase sempre o desaconselhável é mais interessante do que o permitido. Então chegará um dia em que os pais terão que negociar com crianças de quatro anos para que elas não exijam comer um lanche no McDonald's ao invés de uma refeição equilibrada... "Mas isso já acontece!!!!!!!" dirão alguns.... Pois é... acontece sim... e sem prestar atenção, em pouco tempo acharemos isso normal.
posted by Ligeirinho |
1:23 PM
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5.1.04
Sobre o Spring Love, a burka e a formiguinha Z
Litoral, fim de ano. A menos que se queira ficar em praias desertas, era impossível em toda a Ilha Comprida não esbarrar em pessoas dançando axé e funk (ou o que se chama de funk hoje em dia).
Tenho que confessar que um dos motivos pelos quais detesto esses estilos musicais dançantes e por que não sei dançar muito bem. Mais do que isso: posso ate aprender alguns passos, mas me recuso a decorar coreografias. Nesse ponto me identifico com a formiguinha Z do desenho, que se recusava a dançar como todo mundo. No entanto, a essência de tudo aquilo e justamente isso: todos dançando da mesma maneira musicas com letras assumidamente medíocres e com coreografias referenciando diretamente, sem nenhum pudor, motivos e movimentos sexuais.
Não sou exatamente um puritano, mas e preocupante essa vulgarização do sexo e do corpo feminino. É assustador ver meninas, crianças mesmo, rebolando sensualmente sob o olhar complacente dos pais. É assustador ver mulheres esclarecidas se proporem a se comportar como qualquer pista de dança fosse um mostruário de corpos exibidos como objetos sexuais.É deprimente ver essa "burka ao contrario", essa quase obrigação feminina em ter o corpo esculpido e exibido como um troféu a ser conquistado pelos machos mais afoitos. E, às vezes, é preferível nem ficar imaginando no que se tornara tudo isso daqui a cinco, 10 verões.
posted by Ligeirinho |
12:51 PM
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